quarta-feira, 10 de abril de 2013

Comento um vídeo sugerido por um aluno: "Fedão, o revolussionário".


Quando consideramos a forma como a ideologia funciona atualmente,
seguindo um pouco o que o Zizek fala, com base em cinismo camuflado, sem dúvida
encontramos em coisas bem intencionadas e simpaticamente caseiras algo extremamente equivocado
que acaba por sustentar ainda mais a forma de pensamento ideológico dominante (o cinismo irônico das ideias dominantes a respeito de liberdade de escolha (como aparência), dinheiro e atitude).
Que o valor do vídeo seja a crítica a um esquerdismo riquinho e ideológico, que ele
mostre que no fundo o que todos desejam é apenas dinheiro, status e mulher gostosa, com
algo que se pretende humor inteligente, é uma forma tosca de morrer na própria praia do liberalismo.
Por que? Se todos somos cínicos e devemos aceitar tal condição, o que estaremos
fazendo para mudar alguma coisa? A ideologia funciona perfeitamente, ela nos enreda.
Estaremos, através do cinismo, apenas perpetuando uma pseudo-crítica aos valores
ideológicos mais exteriores, muitas vezes esquecendo de alvejar a ideologia (de "direita") escondida
por trás deste cinismo dominante, vangloriando a aparência da livre-escolha. Muito da comédia que se faz hoje é, na verdade, tragédia ideológica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de maio de 2012

uma das sesnetas do novo livro a vir...


canto 2 - subterrâneo


sobre o teu cactário, uma pedrinha esbranquiçada repousa
estudamo-la sem nenhum saber fitoquímico avançado
a sombra projetada angaria a terra que não mais revolve
o grão de centeio estrangeiro enobrece algum dano moral
nessa garganta sem grito nem afta dos vasos e dos canteiros,
mudas surdas, estúpidas e inertes, repousam em folhas de açaí

sob avencas dorminhocas, os passos sombrios de um jabuti
lento caminho seco no terraço cheirando à cenoura
improviso idealizado na franca mitologia dos mosteiros
onde passo de morcego não fabrica mais o magistrado
à sombra das faíscas, mímicas livres de um outro bananal
fatiam o sol em fraturas mais velhas do as que o mito dissolve

barcos cansados do mar com asas, velas que o ar sempre volve
espalhados na planície de freqüências do ante-penúltimo siri
o entorno da poça esquecida nos pratos de um antigo castiçal
clama por outro sorvete fresco na prece da romaria vindoura
se acaso a sentinela dos eixos instituídos pelo cravo mais encravado
for mais viril que o leilão oferecido ao mascate dos novos morteiros

Charles, escoteiro mirim,  nas colinas sonoras de ventos e vespeiros
amolecendo salmos crispados com fetiches de autores em molde
chega à terra com os laços de fita de um Armarinho encalacrado
ao pedir algum troco mais doce pelos cantos e vales de um por aí
ou trocar rubricas de clara em neve nas cabines da manjedoura 
enquanto os áuspices defendem cesárias dos partos de via normal

a cerda parda não ferra cavalo na refinaria de algum honesto sal
ginga macia e suave na resistência oculta dos santos formigueiros
abranda infantil e  docemente um tijolo do poço em salmoura
tingindo de branco o vazio dos vermes que o jarro das fases envolve
inerte expoente,  lambida analítica, estátua tipográfica em língua tupi
estante de prazeres pesados no osso dos muros por cal acorçoado

Parnaíba em parênteses por corações em frágil tessitura e fardo
linha de frente dos calores e temores nas franjas de um tálamo abissal
fome recoberta das salas com finas telas que projetam algum guarani

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

face capital

tenho enorme dificuldade em entrar no facebook, ao contrário da maioria das pessoas
e de sites anteriores e blogs.
já tinha percebido que o fluxo de informação é como um capital, mas nunca 
tinha certeza até ler sobre o valor de exposição de Benjamin. diferente
do valor de uso e do de troca, o de exposição talvez seja o mais desenvolvido
na nossa época como capital, dada as facilidades comunicativas.
o fato de ser algo que vai rodando continuamente transforma o conteúdo
em capital mais facilmente.
vejo pessoas bem intencionadas recomendando esse valor  que eu mesmo não busco.
quando nos contentamos com muito trabalho e pouca projeção, tudo fica mais tranquilo.
fato é que esta exposição acaba te valorizando, mas pelo que vejo, gera muita
cegueira e narcisismo também.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

mimese nas reentrâncias


Como muito estudante de pós-graduação ao final dos anos 90, gostava de ler Deleuze com uma admiração quase beatífica, talvez por influência do meu orientador, que era ou ainda é adepto dessa filosofia. Mas uma das coisas que sempre me deixou desconfiado era a história de um plano de imanência, embora não tivesse nem tenha  a pretensão nem o virtuosismo necessário para criticá-lo. Era apenas uma sensação sobre a forma mitológica de fazer filosofia e, apesar de gostar do mergulho estético provocado, ao mesmo tempo o lado mitológico me fazia me afastar e desconfiar, como quando, só para dar um exemplo, ele fala em fractais ou singularidade. Com o tempo, percebia que esta filosofia não teria se tornado fetichista à toa, onde os conceitos geram efeitos discursivos com mais facilidade do que com outras filosofias de grande interesse e riqueza da mesma época, talvez com a excessão de Derrida, que também foi tão fetichizado. Inclusive porque os conceitos-feitiço, com nomes poderosamente fetichistas (plano de tal, devir-algo, rizoma, territorialização etc) passam a servir de carimbo mais facilmente.
Mas logo apareceram alguns virtuoses capazes de fazer tremer e desmontar essas bases mitológicas. Um exemplo forte veio do Rio. Por meio de uma reconsideração  totalmente diferente da mimese e das representações-efeito,  Luiz Costa Lima demonstrou, com respeito e independência, o buraco mitológico na ideia de plano de imanência em Deleuze. Mesmo sem considerar tudo que vem de religioso das filosofias “orientais” a respeito, mesmo desconsiderando um nietzchianismo ou um spinozismo bastante respeitáveis, a ideia de tratar a imanência como base de criação ou base sustentável de conceitos de forma independente da mimese facilmente apontaria para estes buracos de ordem mais mitológica.
Com o tempo, percebí que se Deleuze fala em “singularidade” quanto ao plano de imanência e sua povoação de conceitos, deveria considerar tudo aquilo que já existe e é retraçado no fazer de qualquer criação ou mesmo o que a matemática trata no plano da transição de representações ao falar de singularidade, como encontro  ou local de transição das formas de representações. Nem precisaríamos da matemática. Mais globalmente, basta considerar a relação e as lacunas formadas pelas linhas remexidas como operação de criação inevitavelmente mimética (no sentido de Costa Lima ou de um Lacoue-Labarthe). É que um limite deleuziano está em identificar mimese com a representação fixada, ou mesmo demonizada (com a simples imitatio dos latinos ou como aquilo que um primeiro Foucault puto com os sorbonnards critica ao falar do lado de Fora, de um aberto mitológico, embora, no fim da vida, tenha mudado de ideia e passado a falar justamente das linhas de transição...). Este espaço ilimitado ou absoluto mitificado como plano de imanência é uma ficção sobre um deserto infinito povoado de conceitos e velocidades infinitas. Ora, como falar em infinitude, em “Um-todo absoluto”, em horizonte sem limite, sem um teor religioso ao conceituar este plano? É que falar em imanência é inescapável. Este é um lugar por onde o Spinoza padre vira o tal príncipe dos filósofos de Deleuze. Se a crítica à ideia de transcendência é extremamente válida, aquela dirigida ao fetiche de uma imanência que permite Abertura ao mundo ou ao Fora não deve ficar muito atrás na mitologia da criação. A reconsideração da mimese fora da imitatio e fora da identificação com a representação abriu um caminho felizmente mais modesto, nem imanentista, nem transcendentalista. Isto tudo não desmerece o grande valor do pensador, apenas demonstra  o porquê de uma propensão mais religiosa a respeito da sua filosofia e de seu uso fetichizado, em geral levando à mitificação do trabalho de criação, supostamente liberta das representações.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

minhocas auditivas e compulsão autobiográfica

Outro dia meu amor me disse que existe uma diferença entre folclore e tradição. Folclore seria a coisa fixada basicamente pela representação de uma tradição , ou no que ando estudando, pela stele, gestell (veja todos os termos mais ricos em alemão para representação como darstellung, vorstellung etc) origem que sentimos nas palavras estilo, estabilidade, estátua, instituição, estar, instalação etc. 
Já tradição é aquilo que muda, daí o compositor sempre lidar com ela e parecer, aos olhos dos moderninhos, um museu ambulante. Mas é exatamente por isto que ele fica, os outros passam. 
Excelente tese para me explicar uma série de elementos que tenho estudado sobre obsessão musical e compulsão auto-biográfica, um tipo diferenciado de narcisismo tão fortemente ligado à música, músicos ou musicófilos. O Lacoue-Labarthe sacou nisto coisas incríveis e deu algumas pistas, mas percebo que cabe a nós que trabalhamos com som dar alguns passos a mais na direção do entendimento da nossa sociologia do desespero. Fiz alguns calculos quantitativos em redes sociais e percebí que o desespero biográfico é 4.5 vezes maior em músicos ou musicófilos, por exemplo. Achei isso muito interessante. Apresentarei um trabalho sobre o assunto mais baseado em filosofia na Escola de Musica da UFRJ na sexta-feira. Assunto difícil...mas incrivelmente revelador. No Brasil, isto ganha cores pos-coloniais engraçadas, quando não enfadonhas....kkk.

domingo, 14 de agosto de 2011

Série Frases de Jornal I

Algumas frases lidas em jornal sempre nos fazem pensar no que significam.
Vou postar uma série a respeito de vez enquando.

 Folha 14 de agosto 2011.

"O cineasta Jean-Luc Godard esteve no Brasil em 1981. Visitou a FAU-USP..., em
cujo auditório fez uma concorrida palestra, lotada de cinéfilos e gente à paisana."
Cadão Volpato

gente à paisana??? Pra mim, a expressão vale para seres como policiais. 
Estariam as pessoas vestidas de ETs?
Mas talvez a frase seja mais profunda do que imaginemos.

"Ele (Riccieli) é de uma extraordinária delicadeza comigo e está sempre ali. É uma criatura sólida". Bruna Lombardi.

Ainda bem, imagine se fosse líquida. Aliás, se fosse líquida, será que estaria ali?


"Geração Zero-zero legitima autores fora do mecanismo de prêmios, escolhas dos editores e resenhas".
Nelson de Oliveira, sobre uma antologia que organizou.

Nada contra e talvez com grande mérito, mas o simples fato de ser nomeado parte de uma geração já não implicaria escolha de edição? Bom, antes zero-zero que uni-duni-trê, salaméminguê.