domingo, 14 de agosto de 2011

Série Frases de Jornal I

Algumas frases lidas em jornal sempre nos fazem pensar no que significam.
Vou postar uma série a respeito de vez enquando.

 Folha 14 de agosto 2011.

"O cineasta Jean-Luc Godard esteve no Brasil em 1981. Visitou a FAU-USP..., em
cujo auditório fez uma concorrida palestra, lotada de cinéfilos e gente à paisana."
Cadão Volpato

gente à paisana??? Pra mim, a expressão vale para seres como policiais. 
Estariam as pessoas vestidas de ETs?
Mas talvez a frase seja mais profunda do que imaginemos.

"Ele (Riccieli) é de uma extraordinária delicadeza comigo e está sempre ali. É uma criatura sólida". Bruna Lombardi.

Ainda bem, imagine se fosse líquida. Aliás, se fosse líquida, será que estaria ali?


"Geração Zero-zero legitima autores fora do mecanismo de prêmios, escolhas dos editores e resenhas".
Nelson de Oliveira, sobre uma antologia que organizou.

Nada contra e talvez com grande mérito, mas o simples fato de ser nomeado parte de uma geração já não implicaria escolha de edição? Bom, antes zero-zero que uni-duni-trê, salaméminguê.





sexta-feira, 15 de julho de 2011

letra de canção ingênua- sensibilidade intensa


A banda canadense de rock Arcade Fire, agora bem sucedida, me fez pensar sobre o que sentem por entre as suas palavras. Velha pretensão paternalista de alguém mais velho de procurar interpretar? Talvez. Quando somos um pouco mais velhos que a idade do fogo arcádico dos vinte e poucos anos, ficamos um pouco mais analíticos e menos empolgados sobre o que expressamos, como quem olha um pouco de fora da curtição, mas sente algumas de suas potências de vida da mesma forma. Na verdade, as vezes não há antena melhor sobre o que vivemos do que o que fazem os de vinte e poucos: um olhar menos vestido, mais puro e imediato, que sempre traz outros ângulos de visão das coisas, muito mais através dos intervalos entre o que dizem do que no que dizem. Não por serem o futuro nem o presente de uma sensibilidade nomeável ou o foco principal de atenção do capital, como muitos já teorizaram. Mas, simplesmente, por sentirem nosso momento de uma maneira mais direta e ingênua mesmo, e muito coisa se torna observável mais pela sintaxe levemente desconexa de sentido e nas entrelinhas do conteúdo do que no próprio significado mais banal das letras.
Como aconteceu com bandas como Radiohead, algo me fez pensar no que diz a canção The Suburbs, na sensibilidade da moçada legal do Arcade Fire. Sem qualquer tentativa de interpretação em tom de pós ou alta modernidade, nem falar pela milésima vez da ótimo sensação retrô que o som traz, vale aqui apenas mencionar algumas frases da canção para jogar conversa fora.  A letra fala de uma guerra imaginada entre garotos de família num subúrdio, uma grande brincadeira à la Os meninos da rua Paulo. Mas aqui, para o que pode acontecer de mais intenso (bombas), a constatação é de que “já estavam entediados” quando as bombas  chegaram. Tudo do presente mais intenso já é sentido (sempre) como passado. Na década de noventa, o tédio também era uma marca das letras, mas ele não parecia ser vivido sem a presença, mesmo  que bem dopada ou dormente, de um corpo anestesiado que quer ter controle e vida boa. Para além da transformação do subúrbio, antes visto como de classe media-baixa  ou local perigoso, e agora de brincadeiras sonhadas de famílias de classe média ou alta mais pacificadas, o sentimento de que o que acontece agora já passou é deslocado novamente. Se antes eu, ainda jovem, queria ter uma filha antes que fosse tarde demais para mostrar a beleza, antes da “chegada dos danos” (típica imagem de uma sociedade sem luta real alguma...), nem mesmo isto agora é possível. O sentimento de tédio dá um passo além. Segundo a música, querer uma filha é pedir demais. Ora, o que isto poderia querer dizer? E conclui de forma também ingenuamente hilária, numa impotência ao quadrado, senão ao cubo: “então, me envie um filho”. Por fim, “nos meus sonhos, ainda estamos berrando, berrando....”.
Claro que ninguém deve achar alguma verdade fundamental da existência atual a partir de letras banais de uma banda do momento, mas acho que muita coisa pode ser pensada a partir destas letras e de sua construção, justamente por serem assim. Talvez o simples fato de procurar uma rima com as sensações mais ingênuas da idade as vezes  leva a camadas mais básicas de captação do nosso momento e da forma como sentimos e vivemos, pois ali o vivido aflora de forma menos mediada ou distanciada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

das pistas da alma

This blazing [ruby], on which [the engraver has carved] a drinking cup, captures the melting glance and sends it on to [flowers] traced [in gold], with triple tendrils. [Receive it], lady, [with joy] at the banquet, [fond as you are] of nov[elties]. Posidippus - . 310 BC-240 BC

terça-feira, 5 de abril de 2011

nova graduação tecnológica


Curso de graduação tecnológica em Puxasaquismo


Ementa:

O curso visa preparar o profissional de Puxasaquismo para o mercado de trabalho, através das demandas e ofertas do mundo entitulado e/ou corporativo. A metodologia segue a rigor as mais novas teorias do gozo paternal/fraternal, além da formação em nomeação e uso da palavra falada diversos, seguindo as mais avançadas técnicas de prestação de serviços disponíveis no mercado.


Disciplinas:

Primeiro Semestre:

História do puxasaquismo I
Frases de efeito I
Generalizações Teóricas sobre a vida I
Técnicas de Ball-licking I
Conversação,  e citação I
Inglês instrumental

Segundo Semestre

História do puxasaquismo II
Frases de efeito II
Sociologia e antropologia
Generalizações Téoricas sobre a vida II
Formalização de práticas cotidianas: vinho, café e outros.
Conversação e citação II

Terceito Semestre

História do puxasaquismo III
Encomio e liberdade pessoal I
Conversação e citação III
Puxação de assunto e teoria da simpatia I
Técnicas de Ball-licking II
Projeto temático de TCC I

Quarto Semestre:

História do puxasaquismo IV
Conversação e citação IV
Encomio e liberdade pessoal II
Puxação de assunto e teoria da simpatia II
Projeto temático de TCC II

sexta-feira, 18 de março de 2011

Facebunda do capital

Depois de sentir violência moral um tanto boba, percebí porque não gosto do facebook.
Ele é a face do próprio capital atualizado (ou uma das suas formas de vida mais pavorosas).
Ali circula informação como um capital cultural entre escolhidos. Veja minha vida, veja
como curto coisas, tenho amigos, sou engajado etc ok (mas muito embora: não posso odiar nada
nem mostrar a verdade mais crua e direta sem ser considerado um
terrorista (daí ser uma arma tão forte do capitalismo atual).
Daí seu sucesso: se tem alguma face, é a do próprio capital atual.
Se ele independe de governos e provoca swarmings políticos,
ele apenas direciona estas energias ao modelo de democracia que bem conhecemos.
Mas isto seria considerado esquerdismo tonto...claro.
A participação de grupos e de diálogos se torna uma espécie de moeda moral
e existencial. O fluxo é diferente e contínuo, daí o sucesso. Orkut não tinha este fluxo capitalizador...
Tudo circula rápido o suficiente para virar esquizofrenia de vitrine e de esquecimento.
Em geral, o êngodo vira marca de classe média alta sem muito noção
do que é trabalhar fora da sua própria "realidade"de relações (democráticas?). Democracia de
eleitos por comadrismo protegido num mundo feito de linguagem,
ou seja, suave e doce como as brioches de algum um tempo atrás...



terça-feira, 15 de março de 2011

outro conto


“Aceita essas amoras? São do meu jardim!”

Sua casa parece um refúgio campestre escondido em plena capital. Uma cadeira de balanço, uma enorme folha seca da Amazônia, e um cocar são apenas minúcias entre imagens de todas as religiões, esculturas, quadros e algumas porcelanas chinesas. Mas a ostentação parece ausente da sua trajetória. Vestida de tricô, jeans délavé e sandálias de dedo, é tão simples que esconde o refinamento de quem vive cercada de luxos.

Harmonia só é possível para alguém que torna o requinte um mero detalhe. Na adolescência, cogitou ser amazona (atualmente, a paixão por cavalos e a equitação seguem como hobby). Deixou de fumar há tempos, mas, de certa forma, tudo onde vive é assim, meio old times, como o cigarro de palha o qual não resiste vez ou outra. “Talvez eu seja meio caipira, não?” Silêncio. Seria brejeira? Ela refuta.  “Eu só gosto de simplicidade”.

Entre os períodos sabáticos na França e Nova Zelândia, já são dez anos que mora sozinha. A independência é revelada numa pequena – mas deslumbrante – coleção de insetos em resina, outra de sementes e até uma cabeça de gnu, que trouxe de sua última viagem a Paris, cidade que visita ao menos duas vezes por ano. E se o lugar onde vive é repleto de histórias e sentimentos, o closet guarda surpresas de fazer chorar muita lulu experiente. “Amo sapatos, mas o que me resume são as botas, e as melhores são as italianas. Sou virginiana, detalhista, quero ainda muito mais”.  Raramente usa maquiagem, só carrega algumas jóias, um anel e correntes de ouro, presentes do namorado. Pretende se casar? “Eu acho uma ilusão a mulher pensar que vai se realizar apenas no trabalho. Acredito que a mulher só é completa com a família, com os filhos. Sou defensora da paixão. O amor é piegas, não?” Imagina, dear, o romantismo é raro e lindo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

conto do nosso livrinho




Esqueça o estereótipo. Ele é banqueiro, ongueiro e brasileiro. Não, não exala tensão ou fica amuado entre cifras e dividendos. Ele é a cara mais serena do novo sistema financeiro. Self-made man dos trópicos, budista, não tem medo de fazer sucesso. Crença: acredita no poder do Universo, mas não numa força superior que possa ser chamada de Deus. Especializado em crédito consignado, é engajado, festeiro e, pasmem, solteiro. Entre juros, merendas e celebridades, apareceu meio de repente no jet-set nacional. Um pedaço de mal caminho.