quinta-feira, 19 de setembro de 2013

berio vitae

Um amigo romano me contou essa história: ele estava almoçando no restaurante moderninho da citadela da Música romana recém inaugurada, quando avistou Luciano Berio numa mesa ao lado. Ao sair, o músico esqueceu seu cachecol, ao que ele reagiu vergando o corpo em direção a ele: "Maestro, maestro...!, como Adão em direção a.... Berio. Ele retorna, toma o cachecol, enrola ao pescoço e sai magistralmente empinando o nariz...Que lindo! Cena da vida cotidiana que os livrinhos chiques de falso esquerdismo nunca vão contar.

domingo, 4 de agosto de 2013

concursos falsos - já fiz dez deles (apenas dois justos)


belo artigo,depois de tantos concursos tentando ser totalmente independente do processo,

a coisa mais caricata que vi é a recaída dos que criticam o patrimonialismo e o salvacionismo, sendo estes, atores fundamentais destas tradições execráveis na cultura do país. 


Homo lattes

Problemas em concursos para professores são reflexo da estrutura produtivista e burocrática das universidades públicas nacionais

Por Sérgio Bruno Martins

Em artigo publicado neste caderno na semana passada, o professor Angelo Segrillo toca num ponto delicado: os processos de seleção para professores em universidades públicas. Trazendo a público um “segredo de polichinelo”, ele relata que não é raro acontecerem concursos claramente “arranjados” para favorecer candidatos ligados a grupos específicos e outras artimanhas do gênero. Contra esse quadro patrimonialista, sugere Segrillo, o ideal seria aproveitar o atual clima de insatisfação “com todo tipo de corrupção no país” para se propor mecanismos mais transparentes, impessoais e padronizados; uma possibilidade aventada é a criação, pelo Ministério da Educação, de uma comissão independente para este fim.

Concordo integralmente com Segrillo a respeito da necessidade de enfrentar abertamente essa questão. No entanto, creio que o enfoque na corrupção perde de vista sua dimensão mais fundamental: a estrutura acadêmica da qual o atual modelo de concursos públicos faz parte. A ênfase na moralização dos concursos não só deixa intocada tal estrutura, como tende a reforçá-la; é como se nada em seu cerne merecesse crítica, faltando apenas azeitar melhor a máquina através de um controle mais rigoroso das pessoas que nela operam. A palavra de ordem é impessoalidade. Mas será que tudo realmente se resume ao erro humano? E será que tamanha padronização não ameaçaria a diversidade de universidades e departamentos? Não seria o caso de dar um passo atrás e recolocar o problema dos concursos num contexto mais amplo?

Em linhas gerais, o modelo de conhecimento que rege a universidade pública no Brasil hoje pode ser descrito como produtivista e objetivista. Produtivista porque enfatiza a produção constante e abundante, sobretudo na forma de artigos em revistas indexadas. Objetivista porque toda essa produção é qualificada de acordo com uma escala pré-estabelecida de categorias e assim traduzida em pontos. Eis o dogma deste modelo: todo dado qualitativo será redutível a termos quantitativos. E eis seu corolário: o valor de um pesquisador será determinado, de forma análoga, pela soma dos pontos marcados pela sua produção. Nasce assim o Homo lattes, um produtor de conhecimento determinado por toda uma estrutura que não cessa de lhe dizer: “quanto mais, melhor”.


Objetividade enganosa

Numa banca de seleção, isso leva com frequência à seguinte cena: ao invés de ler, analisar e discutir o mérito e a pertinência de um conjunto selecionado de trabalhos de um determinado candidato para a vaga que se quer preencher, o que os examinadores fazem é somar os pontos “contidos” em seu currículo completo (numa aberração adicional, o candidato é obrigado a enviar de antemão um volumoso dossiê de documentos comprovando a autenticidade de todo e qualquer item listado em seu currículo; no trato com a burocracia, o que vige é a presunção de desonestidade). Estranhamente, o que a banca lê durante o concurso não são textos produzidos no dia a dia da pesquisa, mas uma prova com ponto sorteado na véspera. Nesse insólito vestibular para professor, o que é efetivamente avaliado é o desempenho do candidato em condições extremamente tensas e adversas (o que, nos dias de hoje, inclui escrever de próprio punho), e que não se assemelham a nada com que ele vá lidar profissionalmente caso seja selecionado. Somados os pontos (sempre eles...) de todas as etapas do processo, está escolhido, de forma supostamente objetiva, o futuro professor.

O Homo lattes tirando uma pilha de fotocópias comprobatórias e o professor convidado a contar pontos em currículos inchados nada mais são do que duas imagens extremas — mas tristemente normalizadas, porque corriqueiras — do que a academia está se tornando sob os auspícios do produtivismo e do objetivismo. Que formação intelectual pode advir desse contexto? Que ética do conhecimento está implícita aí? Que espécie de saber se pode esperar desse acadêmico burocratizado? Queremos acadêmicos conformados ao que já se conhece, ou capazes de abrir perspectivas críticas e científicas?

É sobre perguntas como essas, e não apenas sobre remédios para a corrupção, que o problema dos concursos deve nos fazer pensar. E, dito isso, vale perguntar também se o patrimonialismo de que fala Segrillo é de fato um defeito pontual no sistema, ou se ele não é em certa medida um produto deste. Afinal de contas, não há álibi mais perfeito para os que conhecem bem os meandros burocráticos e os meios de manipulá-los: a escolha do professor, por mais enviesada que seja, estará sempre legitimada de antemão pela suposta objetividade do processo. Não seria mais interessante abandonar esse mito da objetividade de uma vez por todas e buscar transformar os processos de seleção numa oportunidade de cultivar discussões consequentes a respeito dos rumos de um determinado departamento ou universidade? Será que todo argumento subjetivo deve ser banido da discussão sob suspeita de ser necessariamente escuso? Não é possível imaginar que uma discussão menos mediada por rankings e pontuações possa ter o benefício justamente de trazer à luz as disputas intelectuais e políticas que acontecem e vão continuar acontecendo? Melhor que tentar debelar tais disputas é torná-las parte de uma dinâmica acadêmica mais organicamente engajada com os rumos das universidades.

Assim como o que está em jogo nas manifestações atuais não é simplesmente a corrupção, mas sobretudo uma crise na própria estrutura da democracia representativa (da qual a corrupção é provavelmente um dos sintomas), o problema das universidades também não pode ser reduzido aos desvios de conduta de grupos e indivíduos (que, quando ocorrerem, devem evidentemente ser punidos). É verdade que uma mudança estrutural desse patamar em nossa cultura acadêmica pode parecer com uma montanha a ser movida. É verdade também que isso envolve certas questões que extrapolam o âmbito da universidade (por exemplo: até que ponto é possível resguardar a singularidade profissional do professor universitário em meio às leis que regem o funcionalismo público?). Porém, e creio que aqui estou novamente de acordo com Segrillo, o silêncio certamente não serve ao interesse comum.

Sérgio Bruno Martins é doutor em história da arte pela University College London

quarta-feira, 12 de junho de 2013

academia actuarial

Nos meios acadêmicos, é comum a autoridade virar autoritarismo. Isso não é nenhuma novidade. Falo apenas de um lado do processo; o acúmulo de trabalhos baseados numa noção consagrada. Isto não seria problema se revelasse alguma coisa sobre a mesma noção ou sobre seu contexto, digo, o bom trabalho de um bom scholar. O problema está em se valer dela como forma autoritária de entendimento justamente para não precisar pensar, muitas vezes num processo de auto-bajulação e deslocamento. Muitos trabalhos trazem esta noção consagrada no título (seja por alusão, seja explicitamente), como uma forma de garantia do seu estatuto de erudição (em geral, aplicando-se a um caso particular) e não como exercício de pensamento. E ao ler a grande maioria dos trabalhos, notamos que nada de fato foi pensado, apenas a ideia de chancelar a própria mediocridade através de relação banal, valorizando assim uma atividade muito mais actuarial, muito comum hoje em dia em função da contagem produtivista.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Comento um vídeo sugerido por um aluno: "Fedão, o revolussionário".


Quando consideramos a forma como a ideologia funciona atualmente,
seguindo um pouco o que o Zizek fala, com base em cinismo camuflado, sem dúvida
encontramos em coisas bem intencionadas e simpaticamente caseiras algo extremamente equivocado
que acaba por sustentar ainda mais a forma de pensamento ideológico dominante (o cinismo irônico das ideias dominantes a respeito de liberdade de escolha (como aparência), dinheiro e atitude).
Que o valor do vídeo seja a crítica a um esquerdismo riquinho e ideológico, que ele
mostre que no fundo o que todos desejam é apenas dinheiro, status e mulher gostosa, com
algo que se pretende humor inteligente, é uma forma tosca de morrer na própria praia do liberalismo.
Por que? Se todos somos cínicos e devemos aceitar tal condição, o que estaremos
fazendo para mudar alguma coisa? A ideologia funciona perfeitamente, ela nos enreda.
Estaremos, através do cinismo, apenas perpetuando uma pseudo-crítica aos valores
ideológicos mais exteriores, muitas vezes esquecendo de alvejar a ideologia (de "direita") escondida
por trás deste cinismo dominante, vangloriando a aparência da livre-escolha. Muito da comédia que se faz hoje é, na verdade, tragédia ideológica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de maio de 2012

uma das sesnetas do novo livro a vir...


canto 2 - subterrâneo


sobre o teu cactário, uma pedrinha esbranquiçada repousa
estudamo-la sem nenhum saber fitoquímico avançado
a sombra projetada angaria a terra que não mais revolve
o grão de centeio estrangeiro enobrece algum dano moral
nessa garganta sem grito nem afta dos vasos e dos canteiros,
mudas surdas, estúpidas e inertes, repousam em folhas de açaí

sob avencas dorminhocas, os passos sombrios de um jabuti
lento caminho seco no terraço cheirando à cenoura
improviso idealizado na franca mitologia dos mosteiros
onde passo de morcego não fabrica mais o magistrado
à sombra das faíscas, mímicas livres de um outro bananal
fatiam o sol em fraturas mais velhas do as que o mito dissolve

barcos cansados do mar com asas, velas que o ar sempre volve
espalhados na planície de freqüências do ante-penúltimo siri
o entorno da poça esquecida nos pratos de um antigo castiçal
clama por outro sorvete fresco na prece da romaria vindoura
se acaso a sentinela dos eixos instituídos pelo cravo mais encravado
for mais viril que o leilão oferecido ao mascate dos novos morteiros

Charles, escoteiro mirim,  nas colinas sonoras de ventos e vespeiros
amolecendo salmos crispados com fetiches de autores em molde
chega à terra com os laços de fita de um Armarinho encalacrado
ao pedir algum troco mais doce pelos cantos e vales de um por aí
ou trocar rubricas de clara em neve nas cabines da manjedoura 
enquanto os áuspices defendem cesárias dos partos de via normal

a cerda parda não ferra cavalo na refinaria de algum honesto sal
ginga macia e suave na resistência oculta dos santos formigueiros
abranda infantil e  docemente um tijolo do poço em salmoura
tingindo de branco o vazio dos vermes que o jarro das fases envolve
inerte expoente,  lambida analítica, estátua tipográfica em língua tupi
estante de prazeres pesados no osso dos muros por cal acorçoado

Parnaíba em parênteses por corações em frágil tessitura e fardo
linha de frente dos calores e temores nas franjas de um tálamo abissal
fome recoberta das salas com finas telas que projetam algum guarani

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

face capital

tenho enorme dificuldade em entrar no facebook, ao contrário da maioria das pessoas
e de sites anteriores e blogs.
já tinha percebido que o fluxo de informação é como um capital, mas nunca 
tinha certeza até ler sobre o valor de exposição de Benjamin. diferente
do valor de uso e do de troca, o de exposição talvez seja o mais desenvolvido
na nossa época como capital, dada as facilidades comunicativas.
o fato de ser algo que vai rodando continuamente transforma o conteúdo
em capital mais facilmente.
vejo pessoas bem intencionadas recomendando esse valor  que eu mesmo não busco.
quando nos contentamos com muito trabalho e pouca projeção, tudo fica mais tranquilo.
fato é que esta exposição acaba te valorizando, mas pelo que vejo, gera muita
cegueira e narcisismo também.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

mimese nas reentrâncias


Como muito estudante de pós-graduação ao final dos anos 90, gostava de ler Deleuze com uma admiração quase beatífica, talvez por influência do meu orientador, que era ou ainda é adepto dessa filosofia. Mas uma das coisas que sempre me deixou desconfiado era a história de um plano de imanência, embora não tivesse nem tenha  a pretensão nem o virtuosismo necessário para criticá-lo. Era apenas uma sensação sobre a forma mitológica de fazer filosofia e, apesar de gostar do mergulho estético provocado, ao mesmo tempo o lado mitológico me fazia me afastar e desconfiar, como quando, só para dar um exemplo, ele fala em fractais ou singularidade. Com o tempo, percebia que esta filosofia não teria se tornado fetichista à toa, onde os conceitos geram efeitos discursivos com mais facilidade do que com outras filosofias de grande interesse e riqueza da mesma época, talvez com a excessão de Derrida, que também foi tão fetichizado. Inclusive porque os conceitos-feitiço, com nomes poderosamente fetichistas (plano de tal, devir-algo, rizoma, territorialização etc) passam a servir de carimbo mais facilmente.
Mas logo apareceram alguns virtuoses capazes de fazer tremer e desmontar essas bases mitológicas. Um exemplo forte veio do Rio. Por meio de uma reconsideração  totalmente diferente da mimese e das representações-efeito,  Luiz Costa Lima demonstrou, com respeito e independência, o buraco mitológico na ideia de plano de imanência em Deleuze. Mesmo sem considerar tudo que vem de religioso das filosofias “orientais” a respeito, mesmo desconsiderando um nietzchianismo ou um spinozismo bastante respeitáveis, a ideia de tratar a imanência como base de criação ou base sustentável de conceitos de forma independente da mimese facilmente apontaria para estes buracos de ordem mais mitológica.
Com o tempo, percebí que se Deleuze fala em “singularidade” quanto ao plano de imanência e sua povoação de conceitos, deveria considerar tudo aquilo que já existe e é retraçado no fazer de qualquer criação ou mesmo o que a matemática trata no plano da transição de representações ao falar de singularidade, como encontro  ou local de transição das formas de representações. Nem precisaríamos da matemática. Mais globalmente, basta considerar a relação e as lacunas formadas pelas linhas remexidas como operação de criação inevitavelmente mimética (no sentido de Costa Lima ou de um Lacoue-Labarthe). É que um limite deleuziano está em identificar mimese com a representação fixada, ou mesmo demonizada (com a simples imitatio dos latinos ou como aquilo que um primeiro Foucault puto com os sorbonnards critica ao falar do lado de Fora, de um aberto mitológico, embora, no fim da vida, tenha mudado de ideia e passado a falar justamente das linhas de transição...). Este espaço ilimitado ou absoluto mitificado como plano de imanência é uma ficção sobre um deserto infinito povoado de conceitos e velocidades infinitas. Ora, como falar em infinitude, em “Um-todo absoluto”, em horizonte sem limite, sem um teor religioso ao conceituar este plano? É que falar em imanência é inescapável. Este é um lugar por onde o Spinoza padre vira o tal príncipe dos filósofos de Deleuze. Se a crítica à ideia de transcendência é extremamente válida, aquela dirigida ao fetiche de uma imanência que permite Abertura ao mundo ou ao Fora não deve ficar muito atrás na mitologia da criação. A reconsideração da mimese fora da imitatio e fora da identificação com a representação abriu um caminho felizmente mais modesto, nem imanentista, nem transcendentalista. Isto tudo não desmerece o grande valor do pensador, apenas demonstra  o porquê de uma propensão mais religiosa a respeito da sua filosofia e de seu uso fetichizado, em geral levando à mitificação do trabalho de criação, supostamente liberta das representações.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

minhocas auditivas e compulsão autobiográfica

Outro dia meu amor me disse que existe uma diferença entre folclore e tradição. Folclore seria a coisa fixada basicamente pela representação de uma tradição , ou no que ando estudando, pela stele, gestell (veja todos os termos mais ricos em alemão para representação como darstellung, vorstellung etc) origem que sentimos nas palavras estilo, estabilidade, estátua, instituição, estar, instalação etc. 
Já tradição é aquilo que muda, daí o compositor sempre lidar com ela e parecer, aos olhos dos moderninhos, um museu ambulante. Mas é exatamente por isto que ele fica, os outros passam. 
Excelente tese para me explicar uma série de elementos que tenho estudado sobre obsessão musical e compulsão auto-biográfica, um tipo diferenciado de narcisismo tão fortemente ligado à música, músicos ou musicófilos. O Lacoue-Labarthe sacou nisto coisas incríveis e deu algumas pistas, mas percebo que cabe a nós que trabalhamos com som dar alguns passos a mais na direção do entendimento da nossa sociologia do desespero. Fiz alguns calculos quantitativos em redes sociais e percebí que o desespero biográfico é 4.5 vezes maior em músicos ou musicófilos, por exemplo. Achei isso muito interessante. Apresentarei um trabalho sobre o assunto mais baseado em filosofia na Escola de Musica da UFRJ na sexta-feira. Assunto difícil...mas incrivelmente revelador. No Brasil, isto ganha cores pos-coloniais engraçadas, quando não enfadonhas....kkk.

domingo, 14 de agosto de 2011

Série Frases de Jornal I

Algumas frases lidas em jornal sempre nos fazem pensar no que significam.
Vou postar uma série a respeito de vez enquando.

 Folha 14 de agosto 2011.

"O cineasta Jean-Luc Godard esteve no Brasil em 1981. Visitou a FAU-USP..., em
cujo auditório fez uma concorrida palestra, lotada de cinéfilos e gente à paisana."
Cadão Volpato

gente à paisana??? Pra mim, a expressão vale para seres como policiais. 
Estariam as pessoas vestidas de ETs?
Mas talvez a frase seja mais profunda do que imaginemos.

"Ele (Riccieli) é de uma extraordinária delicadeza comigo e está sempre ali. É uma criatura sólida". Bruna Lombardi.

Ainda bem, imagine se fosse líquida. Aliás, se fosse líquida, será que estaria ali?


"Geração Zero-zero legitima autores fora do mecanismo de prêmios, escolhas dos editores e resenhas".
Nelson de Oliveira, sobre uma antologia que organizou.

Nada contra e talvez com grande mérito, mas o simples fato de ser nomeado parte de uma geração já não implicaria escolha de edição? Bom, antes zero-zero que uni-duni-trê, salaméminguê.





sexta-feira, 15 de julho de 2011

letra de canção ingênua- sensibilidade intensa


A banda canadense de rock Arcade Fire, agora bem sucedida, me fez pensar sobre o que sentem por entre as suas palavras. Velha pretensão paternalista de alguém mais velho de procurar interpretar? Talvez. Quando somos um pouco mais velhos que a idade do fogo arcádico dos vinte e poucos anos, ficamos um pouco mais analíticos e menos empolgados sobre o que expressamos, como quem olha um pouco de fora da curtição, mas sente algumas de suas potências de vida da mesma forma. Na verdade, as vezes não há antena melhor sobre o que vivemos do que o que fazem os de vinte e poucos: um olhar menos vestido, mais puro e imediato, que sempre traz outros ângulos de visão das coisas, muito mais através dos intervalos entre o que dizem do que no que dizem. Não por serem o futuro nem o presente de uma sensibilidade nomeável ou o foco principal de atenção do capital, como muitos já teorizaram. Mas, simplesmente, por sentirem nosso momento de uma maneira mais direta e ingênua mesmo, e muito coisa se torna observável mais pela sintaxe levemente desconexa de sentido e nas entrelinhas do conteúdo do que no próprio significado mais banal das letras.
Como aconteceu com bandas como Radiohead, algo me fez pensar no que diz a canção The Suburbs, na sensibilidade da moçada legal do Arcade Fire. Sem qualquer tentativa de interpretação em tom de pós ou alta modernidade, nem falar pela milésima vez da ótimo sensação retrô que o som traz, vale aqui apenas mencionar algumas frases da canção para jogar conversa fora.  A letra fala de uma guerra imaginada entre garotos de família num subúrdio, uma grande brincadeira à la Os meninos da rua Paulo. Mas aqui, para o que pode acontecer de mais intenso (bombas), a constatação é de que “já estavam entediados” quando as bombas  chegaram. Tudo do presente mais intenso já é sentido (sempre) como passado. Na década de noventa, o tédio também era uma marca das letras, mas ele não parecia ser vivido sem a presença, mesmo  que bem dopada ou dormente, de um corpo anestesiado que quer ter controle e vida boa. Para além da transformação do subúrbio, antes visto como de classe media-baixa  ou local perigoso, e agora de brincadeiras sonhadas de famílias de classe média ou alta mais pacificadas, o sentimento de que o que acontece agora já passou é deslocado novamente. Se antes eu, ainda jovem, queria ter uma filha antes que fosse tarde demais para mostrar a beleza, antes da “chegada dos danos” (típica imagem de uma sociedade sem luta real alguma...), nem mesmo isto agora é possível. O sentimento de tédio dá um passo além. Segundo a música, querer uma filha é pedir demais. Ora, o que isto poderia querer dizer? E conclui de forma também ingenuamente hilária, numa impotência ao quadrado, senão ao cubo: “então, me envie um filho”. Por fim, “nos meus sonhos, ainda estamos berrando, berrando....”.
Claro que ninguém deve achar alguma verdade fundamental da existência atual a partir de letras banais de uma banda do momento, mas acho que muita coisa pode ser pensada a partir destas letras e de sua construção, justamente por serem assim. Talvez o simples fato de procurar uma rima com as sensações mais ingênuas da idade as vezes  leva a camadas mais básicas de captação do nosso momento e da forma como sentimos e vivemos, pois ali o vivido aflora de forma menos mediada ou distanciada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

das pistas da alma

This blazing [ruby], on which [the engraver has carved] a drinking cup, captures the melting glance and sends it on to [flowers] traced [in gold], with triple tendrils. [Receive it], lady, [with joy] at the banquet, [fond as you are] of nov[elties]. Posidippus - . 310 BC-240 BC

terça-feira, 5 de abril de 2011

nova graduação tecnológica


Curso de graduação tecnológica em Puxasaquismo


Ementa:

O curso visa preparar o profissional de Puxasaquismo para o mercado de trabalho, através das demandas e ofertas do mundo entitulado e/ou corporativo. A metodologia segue a rigor as mais novas teorias do gozo paternal/fraternal, além da formação em nomeação e uso da palavra falada diversos, seguindo as mais avançadas técnicas de prestação de serviços disponíveis no mercado.


Disciplinas:

Primeiro Semestre:

História do puxasaquismo I
Frases de efeito I
Generalizações Teóricas sobre a vida I
Técnicas de Ball-licking I
Conversação,  e citação I
Inglês instrumental

Segundo Semestre

História do puxasaquismo II
Frases de efeito II
Sociologia e antropologia
Generalizações Téoricas sobre a vida II
Formalização de práticas cotidianas: vinho, café e outros.
Conversação e citação II

Terceito Semestre

História do puxasaquismo III
Encomio e liberdade pessoal I
Conversação e citação III
Puxação de assunto e teoria da simpatia I
Técnicas de Ball-licking II
Projeto temático de TCC I

Quarto Semestre:

História do puxasaquismo IV
Conversação e citação IV
Encomio e liberdade pessoal II
Puxação de assunto e teoria da simpatia II
Projeto temático de TCC II

sexta-feira, 18 de março de 2011

Facebunda do capital

Depois de sentir violência moral um tanto boba, percebí porque não gosto do facebook.
Ele é a face do próprio capital atualizado (ou uma das suas formas de vida mais pavorosas).
Ali circula informação como um capital cultural entre escolhidos. Veja minha vida, veja
como curto coisas, tenho amigos, sou engajado etc ok (mas muito embora: não posso odiar nada
nem mostrar a verdade mais crua e direta sem ser considerado um
terrorista (daí ser uma arma tão forte do capitalismo atual).
Daí seu sucesso: se tem alguma face, é a do próprio capital atual.
Se ele independe de governos e provoca swarmings políticos,
ele apenas direciona estas energias ao modelo de democracia que bem conhecemos.
Mas isto seria considerado esquerdismo tonto...claro.
A participação de grupos e de diálogos se torna uma espécie de moeda moral
e existencial. O fluxo é diferente e contínuo, daí o sucesso. Orkut não tinha este fluxo capitalizador...
Tudo circula rápido o suficiente para virar esquizofrenia de vitrine e de esquecimento.
Em geral, o êngodo vira marca de classe média alta sem muito noção
do que é trabalhar fora da sua própria "realidade"de relações (democráticas?). Democracia de
eleitos por comadrismo protegido num mundo feito de linguagem,
ou seja, suave e doce como as brioches de algum um tempo atrás...



terça-feira, 15 de março de 2011

outro conto


“Aceita essas amoras? São do meu jardim!”

Sua casa parece um refúgio campestre escondido em plena capital. Uma cadeira de balanço, uma enorme folha seca da Amazônia, e um cocar são apenas minúcias entre imagens de todas as religiões, esculturas, quadros e algumas porcelanas chinesas. Mas a ostentação parece ausente da sua trajetória. Vestida de tricô, jeans délavé e sandálias de dedo, é tão simples que esconde o refinamento de quem vive cercada de luxos.

Harmonia só é possível para alguém que torna o requinte um mero detalhe. Na adolescência, cogitou ser amazona (atualmente, a paixão por cavalos e a equitação seguem como hobby). Deixou de fumar há tempos, mas, de certa forma, tudo onde vive é assim, meio old times, como o cigarro de palha o qual não resiste vez ou outra. “Talvez eu seja meio caipira, não?” Silêncio. Seria brejeira? Ela refuta.  “Eu só gosto de simplicidade”.

Entre os períodos sabáticos na França e Nova Zelândia, já são dez anos que mora sozinha. A independência é revelada numa pequena – mas deslumbrante – coleção de insetos em resina, outra de sementes e até uma cabeça de gnu, que trouxe de sua última viagem a Paris, cidade que visita ao menos duas vezes por ano. E se o lugar onde vive é repleto de histórias e sentimentos, o closet guarda surpresas de fazer chorar muita lulu experiente. “Amo sapatos, mas o que me resume são as botas, e as melhores são as italianas. Sou virginiana, detalhista, quero ainda muito mais”.  Raramente usa maquiagem, só carrega algumas jóias, um anel e correntes de ouro, presentes do namorado. Pretende se casar? “Eu acho uma ilusão a mulher pensar que vai se realizar apenas no trabalho. Acredito que a mulher só é completa com a família, com os filhos. Sou defensora da paixão. O amor é piegas, não?” Imagina, dear, o romantismo é raro e lindo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

conto do nosso livrinho




Esqueça o estereótipo. Ele é banqueiro, ongueiro e brasileiro. Não, não exala tensão ou fica amuado entre cifras e dividendos. Ele é a cara mais serena do novo sistema financeiro. Self-made man dos trópicos, budista, não tem medo de fazer sucesso. Crença: acredita no poder do Universo, mas não numa força superior que possa ser chamada de Deus. Especializado em crédito consignado, é engajado, festeiro e, pasmem, solteiro. Entre juros, merendas e celebridades, apareceu meio de repente no jet-set nacional. Um pedaço de mal caminho.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

mauá - desbunde

Visconde de Mauá continua um pequeno paraíso, como se fosse um país miniatura fundindo três estados, três sotaques. Mesmo que sua estrada de acesso dê algum medo com as chuvas, mesmo que sua imponência hídrica se torne algo comum ao viajante e ao morador local, ao trillhar ramificações tão generosas. Qualquer artificialismo do comércio não impede a glória e a dádiva dos banhos, das plantas e dos animais nos locais mais simples e afastados. Ali, a vida pode se tornar sempre presente, um presente respirado de prazer,  tanto no sentido objetual quanto temporal. Àqueles que puderem visitar, uma dica é alugar, por exemplo, um chalé do Mineiro, lugar extremamente honesto, no vale de Santa Clara. Pequenas casinhas em meio a uma linda orquestração de bichos e plantas, próximas a lindas cascatas. Quero morar num local assim um dia.